• Artigo Abril 2003.
 
O CENTURIÃO
 
 

Contam que um espírito achava-se há bastante tempo sentado em um tronco seco de uma árvore, cabisbaixo. Vez por outra levava as mãos aos olhos para enxugar as lágrimas que rolavam em suas faces enrugadas, emitindo, de quando em quando, fundos e lamentosos suspiros.

Ao redor, uma floresta de árvores retorcidas e sem folhas, o chão desprovido de grama e, aqui e ali, flores murchas, sem cheiro. Não se ouvia nenhum canto de pássaro; mais adiante, porém, vislumbravam-se formas de seres escuros, parecendo deformados, que passavam por ele, vez por outra gargalhando e apontando-lhes seus dedos descarnados.

O céu era cinza-escuro, sem mudanças, noite e dia iguais, a não ser, por uma espécie de chuva com pingos quentes e pútridos acompanhada de clarões e trovões que riscavam o ambiente e corriam pela terra seca, deixando o ar carregado de um cheiro insuportável de enxofre.

O espírito clamava por seu filho e se desesperava, como alucinado, por não ser ouvido por ninguém.

Seus gritos angustiados e aflitos retornavam em ecos dementados, que o deixavam como surdo, e um zumbido atroz, entrecortado de vozes raivosas, o acompanhava, todo o tempo.

O pobre espírito já manifestava cansaço, mas lembrou-se ter ouvido falar que um carpinteiro que, em sua época, diziam haver curado os doentes, alucinados e cegos. Tentou lembrar-lhe o nome, mais foi em vão, não o pode lograr, mais mesmo assim gritou: homem de Nazaré, vê a minha desgraça e compadece-te de mim!

Impulsionado por força desconhecida, levantou-se e viu á sua frente um espírito aureolado de luz, que parecia envolvê-lo momentaneamente, e estranho conforto tomou todo o seu corpo. Enxugando as lágrimas notou que as mesmas eram, agora, limpas e cristalinas e em vez de sujar-lhes as suas mãos, limpava-as.

O ser iluminado dirigiu-se ao espírito em conflito e sua voz suave, acompanhada de música sublime, perfumava o ambiente, com sutis aromas.

- Meu velho amado, por que te esqueceste por tanto tempo de pedir socorro para as tuas dores?

- O que tanto te atormenta?

O velho, ainda absorvido pela inesperada visita e surpreso diante de tanta beleza, pergunta-lhe, entrecortando a voz com soluços de gratidão e dúvidas

- Quem és tu, óh homem de luz e beleza? Por que me socorres?

- O Carpinteiro de Nazaré enviou-me para ajudar-te, pois Seu coração está pesaroso e triste ante a tua dor.

E porque sofres?

Há muito tempo, que não sei precisar, estou à procura do meu filho e não o encontro, não cesso de gritar por ele e ele não me ouve. Ouço apenas gargalhadas, zombarias e acusações e vejo dedos em riste apontando-me como se criminoso fosse.

Meu filho era poeta, músico, pintor, possuía muitas jóias, palácios, várias esposas e era o mais querido entre os reis, sultões e marajás de todo o oriente.

Lembro-me, perfeitamente, da felicidade que meu filho fluía e eu por extensão por amá-lo mais que a tudo no mundo, também vivi dias venturosos. Meu orgulho paterno inflou-se ainda mais quando famosa adivinha previu-me que meu filho seria lembrado através dos séculos, e, todavia, não o encontro. Era poderoso, percorria todos os palácios desde a Babilônia até a Pérsia, sendo adorado pelos mais poderosos conquistadores. Nada lhe faltava. No entanto clamo por ele e não o vejo, nem o sinto, por isto sofro como um desgraçado abandonado por todos.

Não entendo a sua ausência tão prolongada de minha vida... Tenho vivido, por largo tempo, numa ansiedade crescente e me consome o desejo de pai devotado e orgulhoso de abraçar e ter junto a mim o filho querido... Anelo por vê-lo, nem que fosse por um fugaz momento, mesmo que a custa da eternidade destes sofrimentos que me pesam e consomem...

- O seu pedido será atendido, estimado amigo, e permitiremos que o Senhor, como Espírito, possa se deslocar até o mundo dos encarnados, aonde terá notícias de seu filho e possa encontrá-lo.

O velho foi tomado de alegria e preparou-se, com a ajuda da entidade de luz, para seguir à cidade na Terra, onde atualmente vivia o filho já reencarnado.

Sua tristeza tornou-se ainda mais acentuada quando observou o filho, em uma mesa de bar, completamente embriagado, envolvido com companhias espirituais sombrias e disformes, idênticas às que lhe cercavam naquele vale solitário e árido; vivia em companhia de mulheres e companheiros viciados no sexo, a cantar as próprias músicas, com duplo sentido, imorais, a declamar versos pornográficos e a desenhar borrões de figuras em atos libidinosos. Quando o astro rei derramava sobre a Terra os seus raios cor de ouro, acompanhou o filho que se dirigiu a lar singelo, onde habitava mulher acompanhada de três filhos, famintos e maltrapilhos. Observou os maltratos deferidos contra a pobre esposa, que em silêncio recebia as agressões e maltratos abraçada aos filhos cujo pranto ecoava no coração bondoso da mulher que os acalentava com palavras doces e carinhosas de resignação.

Acompanhou-o ao trabalho, em padaria na vizinhança da sua casa, e, acrescentou à sua decepção, a atitude do filho, tratando os clientes com azedume, e em várias oportunidades o observou retirando somas do caixa, para custear as suas noitadas de depravação.

Acabrunhado, arrasado pela decepção, pediu ao benfeitor que o levasse de volta, pois a sua tristeza e angústias, agora se acentuavam mais.

O ser iluminado o conduziu de volta e novamente se encontravam na mesma paisagem de outrora.

- Sou um miserável, sou um desgraçado, quanta infelicidade e decepções, agora depois do que assisti me resigno do castigo que padeço.

- Não, o Carpinteiro nos ensinou a amar e o nosso Pai nos criou para sermos felizes. O senhor, estimado amigo, não teve outros filhos?

- Sim, tive mais um, porém este era um soldado romano, insignificante, um centurião, como muitos outros soldados que eram odiados pelo povo.

- E o senhor não gostaria de vê-lo?

- Para que mais decepções e dores?

- Pois, bom homem, este seu filho deixou a mais bela poesia que a humanidade nunca esquecerá. Está escrita em todas as línguas faladas pelos homens e se o momento do encontro com o Carpinteiro fosse retratado, seria a mais bela pintura vista pelos homens.

O homem sofrido ouvia sem acreditar nas palavras do iluminado, quando o mesmo em voz emocionada e envolvida de sons suaves e divinos, repetiu o diálogo do seu filho com Jesus.

- "Senhor, o meu criado jaz em casa paralítico, e violentamente atormentado. E Jesus lhe disse: Eu irei, e lhe darei saúde.

- Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado, mas dize somente uma palavra, e o meu criado sarará;

- Pois também eu sou homem sob autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro; Vem, e ele vem; e ao meu criado; Faze isto, e ele faz.

E maravilhou-se Jesus, ouvindo isto, e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé.

- Vai, e como creste te seja feito. E naquela mesma hora o seu criado sarou."

O ambiente, antes árido, deserto e triste, transformou-se em luz. Distante uma luz safirina, com tons azuis diversos, conduzia um homem de beleza transcendente, alto e trajando a indumentária de centurião, bela em tons cor de ouro, com traços vermelho suave e penetrante. A cada passo a grama brotava verdejante de tonalidades diversas, as árvores se encheram de folhas e flores, pássaros canoros saudavam em sinfonia o visitante e as flores de tonalidades e perfumes inebriantes pareciam cantar. Sorria e com mãos estendidas, mesmo distantes, tocava a cabeça encanecida do velho, que estático reconhecia o filho.

O espírito sofrido ajoelhou-se e em voz comovida e embargada balbuciou...
- Meu filho! As comportas do seu coração se romperam e lágrimas sinceras correram por suas faces.

O recém chegado levantou-o, com o auxílio do iluminado, e com voz amorosa e bela disse-lhe:

- Vamos pai, o Carpinteiro de Nazaré pediu-me para ajudá-lo a resgatar o seu irmão, o meu irmão, o seu filho, que desgarrado se encontra no espinheiro...


Rudival Cohim