• Artigo Novembro 2003. |
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Sertanejo Curador
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Rudival Cohim Encontrava–se em uma região espiritual de sofrimento, um homem do campo, sertanejo, com 56 anos, aparentando uns 70 anos pelo desgaste do trabalho duro na terra, a face crestada, lábios feridos e rachados pela visita do sol inclemente, dentadura amarelada e falha, envolvido a longos anos em perturbação, sofrendo angústias terríveis, dores inenarráveis. O ambiente que o envolvia mostrava–se em constante claridade, emanada de sóis abrasadores, que pareciam longe e ao mesmo tempo perto demais, queimando a sua pele desgastada e prendendo–o a um círculo riscado na terra seca e esturricada. Não conseguia, por mais que tentasse, atravessá–lo, e, a cada passo, a linha parecia afastar–se ainda mais. Exausto, após as tentativas, caía sobre o chão que o queimava, como se o riscado do círculo fosse alimentado por braseiro incandescente e fétido. Vez por outra chovia, e a linha não deixava a água cinzenta escorrer, retendo–a como se fosse uma cabaça, que se ia enchendo, enchendo, fazendo–o sentir–se afogar até quando uma mão estranha arrastava–o para fora, caindo ele novamente no mesmo ou em outro círculo, com idênticos panoramas de deserto sem fim e solidão amarga como casca de romã verde. Noutras vezes, sobre seu corpo velho e cansado aparecia uma substância, algo pegajosa a queimar a sua pele, deixando ulcerações pútridas e dores insuportáveis, arrancando–lhe da garganta gritos que, saindo da sua boca, transformavam–se em morcegos negros disformes que batiam em algo como janelas de vidro, invisíveis, logo acima da linha do círculo, caindo nos braseiros onde eram consumidos como se fossem pedaços de gravetos ressequidos alimentando brasas que não paravam de estalar. Aliado a tudo isto, e mais penosa, era a pressão do remorso, um remorso incessante feito cantiga de grilo, que não cessava de tinir, provocando um peso incontrolável que o espremia para baixo como a socá–lo na terra seca e quente. Além do traçado do círculo, não via mais nada! Era uma brancura mais branca do que os dias longos do seu saudoso sertão. Seus gritos voltavam como eco e logo que ele parava de gritar, suas ouças tapavam, deixando–o surdo por algum tempo. Nesses momentos de surdez, pensava que ia endoidar e ficava matutando o porque de tantos sofrimentos e dores. Nesse estado, parecia ouvir vozes distantes e fortes, respondendo–lhe: — Você traiu a Deus. Fechava os olhos para não ver, mas via, pela memória, a seca da sua terra, quando o sertão passou a só ter verão, quando tudo que era verde desaparecera, quando o sol acordava cedo e não tinha pressa para ir deitar, parecendo que estava com raiva das plantações, matando as juremas e até as macambiras, tirando as carnes das criações, como se quisesse deixar os urubus com fome, secando as aguadas e afugentando os sertanejos. Via o seu sítio de taipa, coberto de palha de ouricuri e lá estava ele pensando, deixando o tempo correr, sentado no batente da porta, tendo como companhia os pensamentos. E seus pensamentos, como o assobiar do vento, pareciam falar... **** O sol embelezava com suas cores o entardecer e minhas rezas, como se recolhidas por alguém, voltavam com o vento fresco, tocando minha cabeça branca como o algodão selvagem, trazendo esperança e bem estar. As pessoas me chamam de Zé Galo, por eu gostar muito de galos de briga, os que tinha tive que comer por causa da fome braba que consumia a mim e a minha velha Ceição. Que tristeza, meu Deus! A memória trouxe–me de volta o Zeca, meu compadre de são João, dando–me uma muda de umbuzeiro, que plantei no meu terreiro. E o meu pensar me acabrunhava; parecia estar sonhando, mas não estava. Era tudo verdade. Vi que a planta estava murcha, tristinha e sem água, quase morrendo. Foi quando um vento rodopiou em meu ouvido e falou: — Zé Galo, bota água na plantinha. Pensei que estivesse destrambelhado, afinal de contas o vento nãoo fala, apenas assobia e sopra. Levantei–me assustado, olhei pro céu, e disse: — Deus, meu pai, tou com medo, mas num deixe a minha plantinha secar! E assim pensando, passei as mãos calejadas pela enxada nas suas folhas e pelo rabo do olho vi uns "fifós" acender. Deu–me um arrepio, foi quando minha Ceição gritou: — véio, vem dormir! Sertanejo dorme com as galinhas, que eu não tinha mais. Com medo, apressei os andados e entrei na tapera. Dormi e sonhei. Sonhei com um lugar muito bonito, tudo verde, cheio de passarinhos cantando, fruteiras carregadas, um pé de umbu que arrastava no chão de tanto fruto maduro, uma plantação de milho que era uma belezura, parecendo coberto de ouro. Uma porção de gente bonita sorrindo para mim. Acordei cedo, como de costume e acordei sorrindo. O sol ainda estava se espreguiçando, todo saliente, quando abri a tramela da porta do sítio e fui receber a brisa cheirando a terra seca. Olhei para a plantinha e tomei uma tremedeira ao ver o que via. Não é que Deus botou água nela! Estava viçosa, bonita e até uma arapuã, estava cheirando a sua folha. Aí eu pensei: foi o vento que soprou ontem. Dia seguinte, depois de comer um prato de fubá com uns nacos de jenipapo seco, ia saindo para catar gravetos quando o moleque Quincas, nosso vizinho, pediu que fosse a casa do compadre Tião e comadre Bastiana, pois o filho deles, Bené, estava muito banzado. Lá chegando, encontrei a comadre chorando, pois o frangote era só barriga. Parecia que ia pipocar. O bichinho estava amarelo e os beiços pretos como miolo de carvão. Parecia que já tinha inté seguido viagem. Fiquei sozinho no quarto com ele e pensei: Se Deus, meu Pai, deixou viçar minha plantinha, por que também esse frangote não volta a correr por aí? Levantei os oios e clamei: "Deus, meu Pai, ajuda o moleque!" E comecei a passar as mãos pela barriga dele. Parecia que estava alisando um tição de fogueira, da quentura que saia do seu bucho. Quando baixei os oios, parecia que na minha frente alumiou os "fifós", pois tudo ficou claro e uma fumaça esbranquiçada rodopiou na barriga do moleque. Com medo, fui para o terreiro ouvir o choro da comadre. Demorou um pouco quando, de repentinho, o moleque chegou na porta dizendo: — mãe, tô com fome! Eta, a alegria foi grande! E eu tive a certeza de que Deus, meu Pai, estava me ouvindo. Passado uns dias, a filha de um outro compadre estava em dificuldade pra parir, o filho atravancado e a pobre, com as dores, berrava feito bode com fome. Lá chegando, encontrei uma gritaria só. A barriguda gritava, comadre também, compadre resmungava, o marido chorava, o cachorro latia, a espanta boiada cantava e o bode, esse berrava mais que tudinho. Era só confusão. Pensei de novo em Deus, meu Pai, olhei pro Céu e pedi: — "Deus, meu Pai, deixa esse carrapêta nascer!" Botei as mãos na barriga da menina, e os "fifós" acenderam novamente, vindo com eles a fumaça embranquecida e uma mulher muito formosa, que sorriu para mim e disse: "o molecote vai nascer". E nasceu já berrando mais que bode e gritando mais que espanta boiada. Notícia no sertão corre mais que cobra atrás de preá. Adoecia um, adoecia outro, chama o compadre; chama Zé Galo. E outro dizia: "chama o santo". Virei santo. Sabia que quem curava e fazia as mulheres parir era Deus, meu Pai. Fui chamado para ver o filho de um fazendeiro, que a cobra jararacuçu tinha mordido. Foi aí que começou minha desgraça. O moleque espumava pela boca e o sangue saía pelos buracos da pele. Olhei pro Céu, os "fifós" chegaram trazendo a fumaça embranquecida e um Índio grandão com mais dois. Pegaram a perna do moleque e como sanguessuga, foram tirando uma gosma preta, que jogavam no chão e logo desaparecia. Sorriram para mim e, sem falar, eu entendi que eles diziam que o menino ia ficar bom. E ficou. Na saída, enquanto as mulheres com os terços rezavam, o fazendeiro, com os dentes de ouro de fora, era só alegria e risos. Pegou um alforje com alguma comida e dinheiro e disse que era pra mim. Não recebi, pois nunca tinha recebido. O fazendeiro teimou tanto que terminei levando um baézinho. A fome era muita, e carne tinha meses que não experimentava. Matutei: Ele é rico pode dar. Eu e minha velha comemos o baézinho e até chamamos uns compadres, nossos vizinhos, para se fartar com a gente. Desse dia em diante, curava um, trazia um galo de presente; curava outro, trazia um garrote; curava outro trazia um bodinho; outra, uma graúna, sabonete, camisa e assim fui me acostumando. Depois que botava a mão e o doente melhorava, comia e me fartava na mesa dos parentes do doente. Até um vestido muito formoso para a Ceição, que dona Filizarda trouxe da capital. Fiquei conhecido pelo sertão afora e vinham me buscar até para as terras das Alagoas, onde os "fifós" curavam muitos doentes. Um dia curando uma molecota com febre alta, não apareceu os "fifós", nem a fumaça embranquecida, nem ninguém. A molecota continuou com febre alta e foram levá–la para a Cidade. Voltou boa. Nunca mais os "fifós", nunca mais curei ninguém. Adoeci. Nunca mais fiquei bom. Ceição ficou troncha do espinhaço e os "fifós" não chegaram. Ela ficou muito tempo deitada na cama sem andar e criou umas feridas brabas nas costas e o doutor disse que só com uns enxertos na capital ela podia melhorar. Ceição morreu e me deixou só. Agora tó vendo e meu entendimento me mostra que não podia receber o que recebi, que as curas eram feitas por Deus, meu Pai. Tenho uma saudade danada da minha velha, do meu sertão e meus queimar aumenta porquê agora sei que errei demais. Quanto tempo sem pensar no meu Deus! Caí com os joelhos no chão quente e, envergonhado, com a cabeça nas mãos calejadas, chorei... chorei... Depois de tanto chorar um grito saiu da minha garganta: — Deus, meu Pai, perdoa o véio Zé Galo! Quando abri os oios, vi que o fogo do riscado estava se apagando e o clarão quente murchando, parecia a hora que o sol do meu sertão ia dormir. Ainda com os pensados triste na cabeça, escutei uma voz dizer: "mãe tô com fome", virei a cabeça e olha o moleque Bené, filho do compadre Tião e comadre Bastiana, do lado de fora do traçado de fogo, forte, bonito e sem a barriga grande; parecia pintado de umas tintas que brilhavam como vaga–lumes em noite de breu. Ele olhou pra mim e disse: — "Vem seu Zé Galo, Deus, nosso Pai lhe chama". Passou o pé no traçado do braseiro e o braseiro se apagou, corri para ele e vi uma ruma de "fifó" se alumiando e umas fumaça esbranquiçada e perfumada vindo para mim, trazendo Ceição, os três índios, a mulher formosa, o filho do fazendeiro, a mulher que pariu, e muitos que curei, meninos, meninas, véios, mulheres prenhas, até as bicharada. Tudo ficou luminoso e um galo de campina mais uma graúna e um canário amarelinho cantavam para mim. Ceição me pegou nos braços: — Vamos Zé Galo. "Quanto tempo, meu velho eu lhe espero," me disse ela chorando. E seus choros caíam em meu corpo cheio de feridas, que se curavam. Ela disse baixinho, nas minhas ouças, que havia chovido no nosso sertão. Seu chorar parecia chuva também, caindo na terra ressequida e deixando tudo verdinho, até a jurema e a macambira que pareciam, agora, falar de alegria. Eu chorava, chorava e meu vexame agoniado foi diminuindo, os passarinhos cantavam e as cantigas deles vinham para riba de mim, me vestindo, como se os cantar fossem roupas. As flores foram aparecendo e também cantavam, saindo delas um perfume tão bom, que tocava minhas feridas e elas ficavam boas. Quanta belezura eu agora via: O meu sertão tão bonito e cheio de passarinhos, meus galos cantando, meu sítio e o meu pé de umbuzeiro grandão, com um sombreado que parecia também cantar músicas que minha véia mãe cantava quando eu era molecote. E Ceição foi me dizendo: — Não chore mais, meu velho. Nosso Pai, não abandona os que caíram, e nos dá novas oportunidades, para a correção dos nossos enganos. — Eu choro e sofro por causa desse arrependimento, que me mostra a enormidade dos meus erros. — Meu sofrido e bondoso marido, Zé Galo, você recebeu de Deus a dádiva da mediunidade, que não permite cobranças pelas curas e transformações que proporciona a mudança na direção da humanidade desprovida de fé e envolvida com sensações imediatas e fugazes. Mediunidade é dom sagrado e não pertence aos balcões de vendas. — Você vai aprender, Zé Galo, que o médium é instrumento imperfeito que Deus concede a benção de trabalhar, geralmente infectado de falhas morais, defeitos e imperfeições que dificultam, sobremodo, o bom desempenho das suas tarefas. — Você vai aprender, que quando o médium consegue retirar de si os defeitos mais graves, torna–se o instrumento abençoado, que é utilizado pelos Bons Espíritos com segurança, desvelo e respeito para curar, consolar e elevar moralmente os nossos compadres, comadres, vizinhos e caminhantes como nós. — Por caridade e misericórdia de Deus, foi suspensa a sua mediunidade de curar e ver. Você; encontrava–se enfraquecido, por razões de saúde física e procedimento moral, Deus fez o desligamento da sua faculdade, isto se dando devido à extensão do seu problema. Mas Ele levou em consideração a nossa fome e as orações e rezas dos que se curaram através de você, de maneira que foi temporária a suspensão da sua mediunidade. — Recorda, meu véio, quando Dona Herlinda, mulher do gerente do Banco do Brasil, aquele homem bom, lhe procurou para que socorresse a filha deles, que o doutor disse que ela estava morrendo por que o netinho já tinha morrido na barriga? Você passou a mão pela barriga dela e o doutor se espantou quando o frangote saiu berrando. Mais tarde, naquele mesmo dia, a moça já tava com o seu molecote dormindo, nós fomos tomar um café no alpendre e com a luz do candeeiro Dona Herlinda leu um livro para nós, já que nós não sabia os leiturados. — Era um livro escrito por um homem muito importante, das europas e que dizia assim: "Restituí a saúde aos doentes, ressuscitai os mortos, curai os leprosos, expulsai os demônios. Dai gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido. — Esse dom Deus lhe deu, gratuitamente, para alívio dos que sofrem e como meio de propagação da fé; Jesus, pois recomendava–lhes que não fizessem dele objeto de comércio, nem de especulação, nem meio de vida. — Disse em seguida a seus discípulos, diante de todo o povo que o escutava: Precatai–vos dos escribas que se exibem a passear com longas túnicas, que gostam de ser saudados nas praças públicas e de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas e os primeiros lugares nos festins; — que, a pretexto de extensas preces, devoram as casas das viúvas. Essas pessoas receberão condenação mais rigorosa. Eles vieram em seguida a Jerusalém, e Jesus entrando no templo, começou por expulsar dali os que vendiam e compravam; derribou as mesas dos cambistas e os bancos dos que vendiam pombos; — e não permitiu que alguém transportasse qualquer utensílio pelo templo. — Ao mesmo tempo os instruía, dizendo: Não está escrito: Minha casa será chamada casa de oração por todas as nações? Entretanto, fizeste dela um covil de ladrões! — Os príncipes dos sacerdotes, ouvindo isso, procuravam um meio de o prenderem, pois o temiam, visto que todo o povo era tomado de admiração pela sua doutrina. — Sim, eu me alembro desses leiturados. Oh! Ceição, que remorso grande! Olhei para o céu, e disse soluçando: — Deus, meu Pai, me perdoa! E meus olhos cheios de água começaram a molhar o umbuzeiro agora crescido e cheio de frutos. Minha Ceição, junto com os outros, me deitou no chão, coberto de umas plantinhas verdinhas, macias, fazendo meu corpo véio se alembrar, de quando menino, minha véia mãe passava as mãos por minha cabeça, e dizia baixinho: — Dorme Zé Galo, se refaz de tudo. E nós, que te amamos, vamos tomar conta do teu sono. |
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