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A Fundação do Lar Espírita Chico Xavier.
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Assim aconteceu com o Lar Espírita Chico Xavier. Inaugurado oficialmente em 30 de Junho de 1985, em preparação no plano visível há cinco anos e delineado
nos planos invisíveis há mais de cinqüenta.
Tudo começou quando meu irmão Gumercindo, em meados de 1979, pelo telefone me informava que em Salvador, na Bahia, havia visitado uma senhora da Umbanda.
Em reunião privada ela, incorporando uma entidade, informava-lhe que eu e minha família corríamos perigo de vida. Iríamos passar por muitos distúrbios
financeiros e minha esposa e filhas seriam atingidas por doenças irreparáveis.
A premonição era aterradora. No entanto, nossa fé na Igreja Católica, a freqüência dominical e todas as obrigações que ela nos tinha ensinado durante décadas,
deixava-me descrente. Até porque, sendo um baiano em plena época da universidade e da lambreta, freqüentava, principalmente com turistas, os terreiros de Candomblé
interessado em ouvir o som contagiante dos atabaques e usufruir da cordialidade dos Pais e Mães de Santos, que nos brindavam com refeições lautas e deliciosas.
Entretanto, ao mesmo tempo em que as danças e rituais nos chamavam sempre a atenção, o respeito pelos cultos terminava por se impor com a presença dos Orixás em
seus paramentos belos e atraentes.
As coisas começaram a se agravar. Minha esposa não cessava de ter dores de cabeça, nosso casamento estava em perigo, nossas filhas com problemas na escola,
a empresa com sérios distúrbios.
No terceiro telefonema de meu irmão, diante da citação de assuntos ainda mais graves e dos perigos de saúde enfrentados por minha esposa, aceitei o desafio.
Gumercindo não teve acesso à sala. Compondo a mesa tínhamos, na cabeceira, uma senhora morena clara, simpática e sorridente, forte mas não gorda, em traje
branco, ainda jovem, com seus 39 a 45 anos. Tratava-se de Mãe Mocinha. Estava acompanhada de mais quatro, sentadas duas a minha frente, uma ao meu
lado e a outra na outra cabeceira.
O medo me prendia na cadeira e o meu arrependimento já se mostrava através da minha visível impaciência, e na movimentação das minhas mãos molhadas,
que eu não sabia onde pôr.
A senhora à minha frente, usando um vestido azul e branco, começou a cantar algumas músicas, enquanto Mãe Mocinha me acalmava, informando-me
que eram a puxada dos pontos.
Comecei a ouvir as puxadas dos pontos, ritmados e bonitos, olhando para as senhoras da minha frente e ao meu lado. Os esforços para sair da sala eram
em vão, já que eu me sentia preso à cadeira.
Toda a minha vida era descrita naquelas palavras inesquecíveis. Minhas brigas com Vera e suas constantes dores de cabeça, o risco que nossas meninas corriam,
além de assuntos que apenas eu conhecia. Problemas na empresa, e tantos outros problemas. Como é triste e difícil verificarmos que assuntos que achamos serem
exclusivamente nossos, são de conhecimento de outros, sem que sequer saibamos como.
Seguindo seu conselho, levei-as e mais duas de suas filhas para o Recife. Ela dizia que nossa casa e nossa família precisavam de uma limpeza. Até então,
não havia comunicado a Vera ou às meninas nada do que tinha se passado em Salvador. Elas ficaram hospedadas em um hotel, onde fomos buscá-las para as limpezas programadas.
A reunião se passaria na copa da casa. Vera relutava em descer para participar dizendo que não acreditava em macumbas e feitiçarias. Depois de algum
tempo conseguimos convencê-la e às nossas filhas, que finalmente vieram para que iniciássemos a reunião.
Como se fora uma repetição, ali se configurava aquela mesma arrumação. Os mesmos lugares, as flores, o jarro d’água, a toalha branca. Iniciados os
trabalhos e Mãe Mocinha, já com seu Orixá incorporado, vira-se para minha esposa e diz que vai fazer sua cabeça. Naquele instante,
Vera esmurra com ambas as mãos a mesa de mármore violentamente, levanta-se e começa a receber entidades e mais entidades, dançando e girando por
cerca de trinta minutos, enquanto a equipe de Mãe Mocinha continuava cantando. Minhas filhas e eu assistíamos assustados aquela cena, na qual
minha mulher cantava em línguas desconhecidas e dançava rodopiando como um pião.
Foram momentos de surpresa e estupefação. Acalmados com a volta de Vera ao normal, questionamos o que havia acontecido, e Mãe Mocinha informando
e explicando os fatos, dizia-nos que a cabeça de Vera estava feita e ela era uma filha de Iansã e Oxum. Ela precisaria para melhorar,
trabalhar com a umbanda, recebendo os Orixás e ajudando aos necessitados da alma e do corpo.
Iniciamos a limpeza da casa pela discoteca. Mãe Mocinha batia com galhos de pitanga que estalavam e quebravam como se tocassem em algo sólido,
derramando pelo chão todas as suas folhas.
Além do tradicional banho de folhas, vários outros trabalhos foram indicados para nós realizarmos. O mais terrível pra mim, devido ao meu pavor
de almas, era o de ir sozinho à meia-noite na Igreja dos Guararapes e acender uma vela na sua porta. Como sofri de medo. Acendi as velas solicitadas
utilizando uma cúpula de vidro para protegê-las do vento e, às pressas, depositei-as já acesas na porta da igreja, correndo em seguida para meu carro
que, naturalmente, já estava ligado e com a porta aberta. Não é necessário dizer o que o medo nos obriga a ouvir. Até hoje não entendo como conseguia
dirigir o Galaxi, na volta pra casa.
Alguns trabalhos foram realizados com a presença de Mãe Mocinha e suas auxiliares. Além disso, uma série de obrigações que deveríamos cumprir
após seu retorno a Salvador nos foram recomendadas. Aquela respeitável senhora nos trouxe momentos de paz e esperança e temos por ela profunda gratidão,
por ter nos mostrado o desconhecido e curar a dor de cabeça intermitente que prejudicava a nossa Vera.
Os dias se passaram e os trabalhos e obrigações foram feitos com o respeito que exigiam. Vera recebia santos e iniciou o atendimento a amigas
mais próximas, ajudando-as e esclarecendo-as sobre dúvidas e temores.
Nos freqüentes domingos de churrascos e nos sábados das partidas de tênis, regados a muito whisky doze anos e muita comida, era comum serem chamados os
santos que, incentivados pelos amigos alterados pelo excessivo álcool, protagonizavam cômicas situações. Algumas vezes entidades terrivelmente
sofredoras também vinham trazendo as suas dores. Apesar do respeito tudo era muito divertido.
Certa noite estávamos em encruzilhada, no bairro de Boa Viagem, para fazermos um trabalho, uma obrigação, quando nos perguntamos: e se alguém, algum
amigo, nos visse nessa situação, com velas e oferendas?
Voltamos sem fazer o trabalho e em casa lembrei-me de um colega de repartição, do IPASE, que conviveu comigo durante quinze anos, desde os meus onze
anos de idade. Eu passava mais tempo com ele no ambiente de trabalho do que com os meus pais, e bem sabia que entendia desses assuntos. Seria ele quem
me daria a visão de moral, responsabilidade e disciplina que carrego comigo até hoje.
Conversamos muito e ele me deu uma aula de umbanda, candomblé e outros sincretismos religiosos, derramando sobre a minha curiosidade e ansiedade a
Doutrina Espírita, codificada pelo Sr. Allan Kardec. O mesmo Espiritismo que tantas vezes ele tentou me ensinar sem sucesso, já que minha ignorância,
imaturidade e pavor das almas o repeliam.
Aconselhou-me a procurar a Casa dos Espíritas de Pernambuco, nas figuras do Sr. João Batista Campos e Sra. Iracy Campos. Durante cinco anos, com
uma freqüência de cem porcento, como dizem os abnegados Rotarianos, absorvemos a Doutrina Espírita em todos os seus postulados. Como ela não
trabalhava com reuniões mediúnicas, Vera iniciou o recebimento das entidades na sala de passes, que eram aplicados pelo Sr. Campos. Naquela Casa aprendemos
todo o conteúdo doutrinário espírita e podemos dizer que ali fomos preparados para a tarefa que logo mais recairia sobre os nossos ombros.
O Sr. Campos e D. Iracy representaram para nós excelentes professores, introduzindo-nos nas obras sociais e nos dando a oportunidade de estarmos à mesa
das reuniões doutrinárias. Lá aprendemos a estudar as obras kardequianas e as complementares. Até que um dia os compromissos e os empurrões dos
Espíritos amigos nos chamaram à construção do que viria a ser o Lar Espírita Chico Xavier.
Possuíamos um terreno, adquirido no verão de l970, a beira mar do bairro de Candeias e ali iniciamos o projeto da construção da Instituição. Contamos
com o apoio técnico do Dr. Wilson Nadruz, Dr. Nelson Mergulhão, nosso irmão Bernardino, Donizete Oliveira, Dr. Heraldo Velho e do mestre Amaro. Uma
vez tendo sido aprovado pela Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes e órgãos competentes, disponibilizamos os recursos para que a obra fosse erguida
com os melhores materiais. Tratava-se de um projeto arrojado, moderno e fora dos padrões dos Centros Espíritas. Os arquitetos desenharam espaços
amplos e cores vivas e alegres.
No dia 30 de junho de 1985, em uma grande festa que contava com a presença de convidados especiais como o Excelentíssimo Dr. Roberto Magalhães, àquela
época governador do estado, autoridades diversas, a comunidade espírita do estado de Pernambuco, de outros estados do Brasil e do exterior, e do médium
Divaldo Pereira Franco, orador oficial do evento, inauguramos o Lar Espírita Chico Xavier.
Do dia 30 de junho em diante, além da chegada dos meninos, os trabalhos foram se avolumando, até que disponibilizássemos todos os trabalhos que o Sr.
Kardec, abençoadamente, nos orientou a construir.
No atual momento, quando estamos para completar quinze anos no dia 30 de junho de 2000, nos perguntamos se foi difícil. Temos que ser sinceros e afirmar
que foi, porém admitindo que as motivações que recebemos dos amigos encarnados e desencarnados ao longo de nossa jornada nos impulsionaram adiante e que,
como não poderia deixar de ser, já nos encontramos com o projeto para ampliação das instalações da nossa Instituição em andamento, contando sobretudo com
as bênçãos do Pai Celestial e o amparo bendito de Jesus, nosso incondicional amigo.
Sinceramente, Rudival Cohim |
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