Um Recife sem mistérios, ao alcance de todos nós...

 

O Recife tem os seus primórdios na primeira metade do século XVI, quando existia como porto da vila de Olinda. "Um porto tão quieto e tão seguro, que para as curvas das naus serve de muro", na imagem do poeta Bento Teixeira em seu poema épico, Prosopopéia, publicado em 1601. Antes era tão somente um acidente na costa da chamada "Terra de Santa Cruz", a Barra do Arrecife constante do Diário de Pero Lopes de Souza (1532). Anos mais tarde, veio a ser chamada pelo primeiro donatário da capitania de Pernambuco, Duarte Coelho Pereira, de "ribeira do mar dos Arrecifes dos Navios", em sua carta foral datada de 12 de março de 1537, que assim denominava aquela nascente povoação de mareantes e pescadores residentes em torno da ermida de São Frei Pedro Gonçalves, por eles chamada de Corpo Santo.
A povoação, conhecida como ‘Povo dos Arrecifes’, quase que por teimosia se fixara na ponta de uma estreita faixa de terra, cercada pelas águas do mar e dos rios que, por inúmeras vezes, tentaram dali expulsar os seus moradores.
Com o passar dos anos, o "Povo dos Arrecifes" veio se tornar o mais importante porto da América Portuguesa, graças à produção do açúcar, do algodão e do pau-brasil da capitania de Pernambuco. Com a invasão holandesa, em fevereiro de 1630, a povoação passou a ser sede do Brasil Holandês (1630-1654). No período de 1637 a 1644, quando o Brasil Holandês era governado pelo conde João Maurício de Nassau-Siegen, hospedou a primeira missão científica a cruzar o Atlântico e foi objeto de inúmeros melhoramentos que fizeram conhecida esta parte do Brasil em todo mundo erudito de então. A sua condição de capital permaneceu até 1654, quando da rendição das tropas da Companhia das Índias Ocidentais às tropas luso-brasileiras. Expulsos os holandeses, a capital da capitania voltou a ser a Vila de Olinda, mas o Recife nunca mais perdeu a sua situação de porto privilegiado e concorrido, através do qual eram embarcados os principais produtos produzidos pelas capitanias do norte da América Portuguesa.
A cidade lendária
De 1630 para cá o Recife não parou de crescer: Vila de Santo Antônio do Recife, em 1709; cidade, em 1823, é, finalmente, elevada à condição de capital da província de Pernambuco em 15 de fevereiro de 1827.
O Recife, a "cidade lendária" da canção de Capiba, é a também a "moradia da história". Isso porque foi cenário dos principais acontecimentos que não somente marcaram a história pernambucana como influenciaram, sobremaneira, a formação da nacionalidade brasileira.
Hoje é o Recife uma grande metrópole regional, um dos mais importantes pólos comerciais, financeiros, industriais e turísticos do Brasil.

 

A cidade encontra-se localizada numa planície, formada pelas terras de aluvião trazidas pelo delta dos rios Capibaribe, Beberibe, Jiquiá e Jaboatão, bem como pelos constantes aterros realizados pela mão do homem ao longo de quase cinco séculos. A paisagem dessa cidade-sereia, para usar a expressão de Gilberto Freyre, cortada pelos braços dos diversos rios, banhada por um mar de águas mornas, de coloração verde-esmeralda, protegida por uma muralha de arrecifes (que deram origem ao nome da cidade), despertou a veia poética do maranhense Antônio Gonçalves Dias que a denominou de "Veneza Americana transportada, boiante sobre as águas".

 

Todavia, para o recifense Joaquim Nabuco, "melhor porém do que em Veneza, os canais do Recife são rios, a cidade sai da água doce e não da maresia das lagunas, o seu horizonte é amplo e descoberto, as suas pontes são compridas como terraços suspensos sobre a água, e o oceano vem se quebrar diante dela em um lençol de espumas por sobre o extenso recife que a guarda como uma trincheira, genuflexório imenso, onde o eterno aluidor da terra se ajoelhará ainda por séculos diante da graça frágil dos coqueiros". (O Paiz , 30.11.1887).
O Recife tem seu centro urbano constituído por três ilhas: a do Recife, a de Santo Antônio e a da Boa Vista, que se interligam através de pontes que são como braços a unir toda a cidade. A sua condição de planície, refrescada pelos ventos alisios que nos chegam do Atlântico, transforma a capital de Pernambuco num eterno convite para passeios a pé, gozando do cenário de suas pontes e da beleza dos seus monumentos.
Arruar pelo Recife
Quem chega a Pernambuco não pode deixar de conhecer o velho bairro do Recife que, com o seu porto (3.000 metros de cais acostável), deu origem ao povoamento da hoje quatro vezes secular cidade. Lá, à vista da muralha dos arrecifes com as ondas quebrando sobre ela, o visitante sentirá na alma os versos do recifense Carlos Pena Filho:

 

No ponto onde o mar se extingue e as areias se levantam
cavaram seus alicerces
na surda sombra da terra
e levantaram seus muros
do frio sono das pedras.
Depois armaram seus flancos: trinta bandeiras azuis
plantadas no litoral.
Hoje, serena flutua,
metade roubada ao mar,
metade à imaginação,
pois é do sonho dos homens
que uma cidade se inventa.

 

Vamos, assim, em busca de um Recife de que nos fala o poeta Manuel Bandeira, "um Recife brasileiro como a casa do meu avô"... Um Recife como aquele que, em 1957, se revelou ao escritor Tristão de Athayde: "basta abrir as janelas do sobrado alto sobre a foz do rio para que um novo alumbramento se produzisse e a cidade singular de outrora revelasse, com a graça maliciosa de quem entreabre um manto, o que guardava de encantos secretos e renovados".

 

Iniciaremos o nosso passeio a partir do Marco Zero, instalado em 31 de janeiro de 1938 na Praça Barão do Rio Branco, cuja estátua voltada para o mar, em bronze com 280 cm. de altura, é obra do escultor francês Félix Charpentier e foi ali inaugurada, sob um pedestal em pedra de 420 cm. de altura, esculpido por Corbiniano Vilaça, em 19 de agosto de 1917.

 

Nesta praça, no passado denominada Praça do Comércio, se localiza a Associação Comercial de Pernambuco, em prédio inaugurado em 1915, ladeado pelas avenidas Rio Branco e Barbosa Lima. Fundada em 20 de agosto de 1839, a entidade tem em sua sede dezenas de obras de arte e um magnífico mobiliário, com todos os seus pavimentos acessados através de uma singular escadaria em ferro, importada da Bélgica, sendo sua decoração dominada por uma composição de bonitos vitrais retratando riquezas e paisagens brasileiras. Pela calçada da avenida Rio Branco, sairemos da Associação Comercial em direção a Rua do Bom Jesus, que no século XVII era chamada de Rua dos Judeus. Nela, entre 1636 e 1654, funcionou a primeira sinagoga das Américas, a Zur Israel (Pedra de Israel), que se localizava nos prédios de números 197 e 203, onde pregava o erudito rabino Izaque Aboab da Fonseca, autor do primeiro texto literário em hebraico do Novo Mundo e fundador da monumental Sinagoga Portuguesa de Amsterdam.

 

O conjunto, que ainda conserva as mesmas confrontações e traçados de 1635, quando da construção das primeiras residências e lojas dos judeus de Maurícia naquele local, foi objeto de recente restauração a cargo da Fundação Roberto Marinho, em parceria com a Prefeitura da Cidade do Recife e Tintas Ypiranga, dentro do projeto "Cores da Cidade". Hoje, com o seu casario pintado com cores vibrantes, ressaltando os detalhes das fachadas em estilo eclético, a Rua do Bom Jesus, juntamente com as demais que ficam em seu entorno, tornou-se um dos pontos de encontro da cidade.
No final da Rua do Bom Jesus encontrava-se uma das portas da cidade (demolida em 1850, por exigência do trânsito), onde em 26 de janeiro de 1654 foram feitas a entrega das chaves do Recife e de Maurícia, a João Fernandes Vieira, pondo fim a 24 anos de domínio holandês no Norte do Brasil.
Na Praça Artur Oscar encontramos a Torre de Malakoff, onde no século XIX funcionou um observatório astronômico nas instalações do então Arsenal de Marinha, e caminhando em direção ao norte iremos encontrar a igrejinha de Nossa Senhora do Pilar (1680); a Fortaleza do Brum (1631), com o seu museu militar, e, mais ao norte, à beira do Rio Capibaribe, uma coluna em alvenaria, encimada por uma cruz de pedra, vislumbra-se o mais antigo monumento do Recife. Trata-se da Cruz do Patrão, destinada desde o século XVI à orientação dos barcos que ingressavam no ancoradouro natural, consagrada nos romances de Franklin Távora, cenário de execuções por fuzilamento e de tantas outras estórias envolvendo crendices e assombrações.
Retornando através da Rua do Brum, caminharemos em direção à Rua do Apolo onde se encontra, completamente restaurada, a mais antiga casa de espetáculos do Recife, o Teatro Apolo. Sua construção aconteceu entre 1842 e 1846, sendo inaugurado em 19 de dezembro daquele ano e funcionado até o início de 1864, quando veio a ser fechado e transformado em prensa de algodão, armazém de açúcar e depósito de produtos químicos. Assim ficou até 1981, quando a administração da Fundação de Cultura Cidade do Recife o fez voltar a sua primitiva função, transformando-o num importante centro cultural da cidade. Recentemente, entre 1995 e 1996, o Teatro Apolo passou por obras de restauração sob o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Recife e da Fundação Roberto Marinho.

 

Continuando o nosso passeio, iremos conhecer a igreja da Madre de Deus, na rua do mesmo nome, cuja construção obedece ao traçado do mestre-pedreiro Antônio Fernandes de Matos que, em 1679, contratou suas obras com os padres da Congregação do Oratório de São Felipe de Neri. A construção do templo, no entanto, só veio a ser concluída em 1720, apresentando em sua bela fachada esculturas em pedras dos arrecifes e uma estátua de São Felipe de Neri em tamanho natural. Uma visita ao seu interior é de grande valia, particularmente por nele abrigar, além de uma monumental obra em talha, algumas imagens que pertenceram à primitiva igreja do Corpo Santo, demolida em 1913 quando das obras de modernização do porto.

 

Através da ponte Maurício de Nassau, erguida no local onde aquele governante do Brasil Holandês fez construir a primeira ponte em grandes dimensões do Brasil (1644), poderemos vislumbrar a paisagem do Rio Capibaribe e sobre o seu leito as pontes 12 de Setembro (construída no local da primitiva ponte Giratória), Buarque de Macedo e, já no extremo norte da ilha do Recife, a ponte do Limoeiro (por onde passavam os trilhos da estrada de ferro do Limoeiro). No centro urbano, ligando a ilha de Santo Antônio à ilha da Boa Vista, iremos encontrar, ainda, as pontes Velha (cujo nome oficial é 6 de Março), da Boa Vista, Duarte Coelho e Princesa Isabel; ingressando para o interior iremos cruzar dezenas de outras pontes, localizadas sobre os rios que cortam a cidade de modo a integrar o centro urbano com os mais diversos bairros.
Por ruas de Santo Antônio
Na ilha de Santo Antônio, hoje ocupada pelos bairros de Santo Antônio e São José, o conde João Maurício de Nassau fez erguer, a partir de 1637, a sua cidade Maurícia. Obedecendo ao projeto do arquiteto holandês Pieter Post, nela fez construir os palácios de Friburgo e Boa Vista, instalando no primeiro um observatório astronômico e, nos seus jardins, um horto zoobotânico. Abrindo canais, construindo diques, traçando ruas e erguendo duas pontes de grandes dimensões, que uniam o primitivo núcleo portuário à ilha de Santo Antônio e esta ao continente, o conde veio a ser responsável pelos fundamentos da urbanização desta parte da cidade do Recife.
Percorrendo a ilha de Santo Antônio, através do Cais Martins de Barros, seguiremos em direção à Ponte Buarque de Macedo, imortalizada nos versos do poeta Augusto dos Anjos, em busca da Praça da República, onde em 1642 o Conde João Maurício de Nassau construiu o seu horto zoobotânico e o Palácio de Friburgo. Hoje lá se encontram o Palácio do Campo das Princesas (1841), residência oficial dos governadores; o Teatro de Santa Isabel, construído, sob o traço do engenheiro francês Louis Léger Vauthier, em estilo neoclássico entre 1841 e 1850; o prédio do Liceu de Artes e Ofícios (1841); o Palácio da Justiça (1930) e o moderno prédio da Secretaria da Fazenda, com um painel pintado por Cícero Dias.
No antigo Largo do Erário foram bentas, solenemente, em 3 de abril de 1817, as bandeiras da República de Pernambuco; um século depois, foi este pavilhão azul e branco transformado em bandeira oficial do Estado de Pernambuco (1917). O mesmo local fora também chamado de Campo da Honra, em memória dos mártires pernambucanos ali enforcados depois de derrotado pela força das armas o movimento republicano de 1817. – Em 8 de julho de 1817 foram ali executados os capitães Domingos Teotônio Jorge Martins Pessoa e José de Barros Lima, e o padre Pedro de Sousa Tenório. Os corpos desses e de outros mártires executados naquele local, eram imediatamente depois de executados esquartejados, com as suas cabeças separadas dos corpos e as mãos decepadas, a fim de servirem de exposição à curiosidade popular nos locais onde teriam feito a sua pregação revolucionária.

 

Ainda na Praça da República, bem em frente ao Palácio do Governo, uma grande árvore está a chamar a atenção dos visitantes. Trata-se de um baobá centenário (Adansonia digitata), espécime sagrada do Senegal, exaltada em versos pelo poeta João Cabral de Melo Neto e imortalizada por Antoine de Saint Exupéry no seu O Pequeno Príncipe.

 

Cruzando a Praça da República, através de seus jardins, estátuas e monumentos, iremos em direção à Rua do Imperador D. Pedro II onde se encontra o Convento de Santo Antônio, cujo orago é o padroeiro da cidade do Recife. O conjunto, erguido pelos frades franciscanos entre 1606 e 1613, é hoje a mais antiga construção do Recife. Com os seus azulejos holandeses no claustro e portugueses na cúpula da capela-mor (séc. XVII), sua igreja simples e harmoniosa, possuidora de preciosos detalhes em talha dourada, pinturas no teto e notável imaginário, além dos painéis em azulejos portugueses (séc. XVIII) narrando a vida de Santo Antônio, vem despertando a atenção dos mais renomados estudiosos do nosso barroco.
Bem ao lado do Convento de Santo Antônio, poderemos conhecer o Museu de Arte Sacra e a Capela Dourada da Ordem Terceira de São Francisco do Recife, cuja construção foi iniciada em 1695. Trata-se também de uma construção do mestre Antônio Fernandes de Matos, ministro da ordem entre 1697 e 1700, cujas obras em talha dourada, esculpidas pelo artista português Antônio Martins Santiago, e dezessete painéis pintados sobre madeira pelo artista José Pinhão de Matos, enchem de admiração os mais diferentes conhecedores da história da arte. Estamos diante de um dos mais importantes exemplares do barroco em terras brasileiras, considerado monumento nacional desde 1938.
Caminhando pela Rua do Imperador, vislumbramos a igreja e o hospital da Ordem Terceira de São Francisco, conjunto construído em 1702 e recebendo melhorias nos anos subseqüentes até a conclusão do frontispício de sua igreja em 1804. Seguem-se os prédios do Gabinete Português de Leitura (1850), do Jornal do Commercio (1917) e do Arquivo Público Estadual (1945). Nesse último, remodelado em 1929, funcionou a segunda cadeia do Recife (1731), da qual Frei Joaquim do Amor Divino Caneca saiu para ser arcabuzado, em 13 de janeiro de 1825, pagando por sua participação no movimento liberal contra o imperador Pedro I, denominado de Confederação do Equador (1824). No extremo sul desta rua se situa a Praça 1817, a relembrar os mártires da República de Pernambuco daquele ano (o primeiro regime republicano em terras do Brasil). No local se encontra a igreja do Divino Espírito Santo, onde, durante a dominação holandesa, funcionou o templo dos calvinistas franceses. Remodelada por Antônio Fernandes de Matos, entre 1686 e 1689, foi aquele templo entregue aos padres jesuítas sob a invocação de Nossa Senhora do Ó, os quais instalaram um colégio no pátio anexo (hoje desaparecido) em atividade até a extinção daquela ordem em terras do Brasil, em 1760, pelo Marquês do Pombal. Depois de várias destinações, inclusive como Palácio do Governo da capitania, o edifício voltou ao culto católico, em 1855, sob a invocação do Divino Espírito Santo.
Em 22 de novembro de 1859, desembarcou nessa praça o imperador D. Pedro II, acompanhado da imperatriz Tereza Cristina, em visita oficial a Pernambuco, ocasião em que teria exclamado: "Pernambuco é um céu aberto!". Nesta praça, voltado para o nascente, se ergue o grande monumento em mármore a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, aviadores portugueses que, saídos de Lisboa a bordo do "Lusitânia", em 3 de março de 1922, pousaram na bacia do Capibaribe em 5 de junho daquele ano, realizando assim a primeira travessia do Atlântico Sul em hidroavião. O monumento, esculpido por "Santos e Simões – estatuários", foi ofertado pelos portugueses residentes em Pernambuco e ali colocado em 1927. No outro extremo da praça, já em frente ao templo do Divino Espírito Santo, encontra-se uma fonte dominada por uma índia em mármore, representando a nação brasileira, ofertada pela Companhia do Beberibe em 1846, trazendo em seu pedestal quatro datas ligadas à história de Pernambuco: 1654, Restauração Pernambucana; 1817, Revolução Republicana; 1824, Confederação do Equador; 1889, Proclamação da República.
Na Rua Larga do Rosário encontraremos a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Recife (séc. XVII), onde eram coroados os reis do Congo e de Angola, de 1674 até a abolição da escravidão negra em 1888, famosa também pela sua decoração em talha e mobiliário de sua sacristia. Deixando a Rua Larga do Rosário, através da Rua Duque de Caxias, chegaremos à igreja de Nossa Senhora do Livramento dos Homens Pardos (séc. XVIII) que, em sua situação privilegiada, domina todo o largo.

Pela Rua da Penha, tomando a via de acesso do lado esquerdo, seguiremos em busca do Mercado de São José, um singular modelo de arquitetura em ferro produzido na França, instalado no antigo "Largo da Ribeira" em 1875. Naquele centro de comércio, um dos mais belos do seu tempo, recentemente restaurado, encontraremos o melhor do artesanato regional, bem como comidas típicas, folhetos de cordel, ervas medicinais, artigos de cultos africanos, além de um importante centro de abastecimento do tradicional bairro de São José.
Por becos de São José
Na Praça do Mercado é indispensável uma visita à basílica de Nossa Senhora da Penha de França, construída entre 1870 e 1882 pelos frades capuchinhos, instalados naquele local desde o ano de 1656, quando ali ergueram o seu primitivo hospício. Em estilo coríntio, construída em forma de cruz latina, sob o traço do Frei Francesco de Vicenza, é o maior templo do Recife, distribuído em três naves, com preciosos afrescos pintados pelo artista Murilo La Greca em sua capela-mor.
Pela rua ao lado do Convento da Penha, chega-se ao Pátio de São José do Ribamar, dominado por sua singular igreja construída pelos artífices do Recife, marceneiros, pedreiros, carpinteiros e tanoeiros, entre 1752 e 1778, em terreno sujeito à invasão das águas das marés altas de agosto. A construção da igrejinha em pedra e cal só foi permitida pelo bispo de Olinda, em 6 de junho de 1752, na condição de ser o seu piso interior levantado pelo menos cinco degraus acima do leito da rua.
Através da Rua das Calçadas, chega-se ao Largo das Cinco Pontas, onde se ergue a fortaleza de São Tiago, que conservou a primitiva denominação do forte pentagonal construído pelos holandeses em 1630, o "Frederico Henrique", e reformado em 1677 por João Fernandes Vieira, responsável por sua nova denominação. Nesta praça, em local assinalado com uma lápide pelo Instituto Arqueológico e Histórico Pernambucano, foi espingardeado o pensador liberal Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, redator do jornal O Typhis Pernambucano (1823-24). No mesmo local pagaram com as suas vidas sete outros condenados, tendo sido ainda enforcados três outros no Rio de Janeiro e oito no Ceará. Na fortaleza das Cinco Pontas funciona, desde 1981, o Museu da Cidade do Recife, local de visitação obrigatória.
Retornando através do Pátio do Terço, vamos em direção à igreja de Nossa Senhora do Terço, construída na segunda metade do século XIX, cuja torre em azulejos, encimada por tocheiros (215 cm) em louça portuguesa, é considerada uma das mais belas do Recife. Continuando pela Rua das Águas Verdes, que já tinha este nome no final do século XVII, descobre-se diante dos nossos olhos o casario setecentista do Pátio de São Pedro, um dos mais festejados logradouros recifenses, surgido nos primeiros anos do século XVIII, com a sua concatedral de São Pedro dos Clérigos, construída entre 1728 e 1782, hoje considerada um dos mais belos exemplares do barroco meridional.
A sua nave octogonal apresenta pinturas de João de Deus Sepúlveda e Manuel de Jesus Pinto, formando, com o seu cadeiral em jacarandá e seu harmonioso conjunto de talhas, um dos mais ricos repositórios de arte sacra do Brasil. Sua construção foi iniciada em 3 de maio de 1728, estendendo-se até 30 de janeiro de 1782, quando de sua solene sagração. Inscrita como monumento nacional sob o nº 187, Livro Belas-Artes fls. 33, em 20 de julho de 1938, deve-se seu traçado ao arquiteto Manuel Ferreira Jácome, que para ela criou uma nave no traçado octogonal, exemplo único no Nordeste do Brasil. No seu frontispício, predominam, ao contrário de outros exemplares do barroco, as linhas verticais, sendo disposto em cinco planos, apresentando uma notável portada, esculpida em pedra dos arrecifes, na qual aparecem "duas sereias com elmos emplumados aos lados da porta principal", como bem observou Robert C. Smith, quando do seu artigo "Os velhos templos do Recife". O interior apresenta um belo forro pintado e púlpitos entalhados no estilo D. João V. Os balcões e as sanefas são do estilo rococó, o mesmo acontecendo com a capela-mor, a nave e a base do altar-mor. Na decoração do seu interior trabalharam três grandes pintores do barroco brasileiro: João de Deus Sepúlveda, encarregado da pintura do forro da nave octogonal, onde aparece o apóstolo Pedro abençoando o mundo católico; Manuel de Jesus Pinto, responsável pela pintura do forro do coro, retratando o apóstolo Pedro ao receber as chaves da Igreja; Francisco Bezerra, executante dos dez painéis sobre a vida de São Pedro localizados na capela-mor. As 36 cadeiras em jacarandá da capela-mor, juntamente com o mobiliário da sacristia, incluindo as cômodas e os repositórios, são do mestre entalhador José Gomes Figueiredo.
Depois de visitar a concatedral de São Pedro dos Clérigos, seguiremos a caminhada em direção ao Pátio do Carmo, onde se ergue o notável conjunto arquitetônico reunindo a igreja de Santa Tereza da Ordem Terceira, cuja construção fora iniciada em 1696 e se prolongou até 1837, e a Basílica de Nossa Senhora do Carmo, co-padroeira da cidade do Recife, que, juntamente com o convento dos carmelitas, ocupa o local onde o conde João Maurício de Nassau instalou a Casa da Boa Vista (1643). Com a expulsão dos holandeses foram os terrenos, em sua maioria alagados, doados à ordem carmelita que, entre 1679 e 1767, fez construir o seu monumental templo, hoje de visitação obrigatória. No dia 16 de julho, feriado municipal, os devotos da Virgem do Carmelo comemoram com grandes festas o dia da co-padroeira da cidade do Recife; o padroeiro principal da cidade continua sendo Santo Antônio.
Pela Rua Camboa do Carmo, onde no século XVII corria um braço de maré, iremos alcançar a Rua das Flores, dobrando à direita, onde encontraremos, na esquina com a Avenida Dantas Barreto, um notável mural do artista Francisco Brennand, com 32 metros de comprimento, iniciado em 24 de agosto de 1961 e concluído em 24 de abril de 1962, alusivo às duas Batalhas dos Montes Guararapes, com versos escritos por César Leal e Ariano Suassuna. De lá se avista a Praça da Independência, onde se ergue o prédio do Diario de Pernambuco, fundado em 7 de novembro de 1825 e hoje o mais antigo jornal diário em língua portuguesa do mundo, e a igreja do Santíssimo Sacramento de Santo Antônio (1753), que, com sua fachada apresentando esculturas em arenito dos arrecifes domina aquele centro urbano. Caminhando pela Rua Nova, encontraremos a igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares, construída entre 1725 e 1757, considerada um dos mais belos templos setecentistas do Brasil, apresentando no seu interior um verdadeiro deslumbramento com suas paredes brancas e talhas douradas contrastando-se com os painéis emoldurados em seu forro. Na sua entrada, sob o forro do coro, vislumbra-se um notável painel pintado sobre madeira em 1781 por José de Oliveira Barbosa, representando a primeira Batalha dos Montes Guararapes (1648), na qual o exército holandês de 5 000 homens, comandados pelo general Sigemund von Schkoppe, foi derrotado por 3 500 luso-brasileiros pertencentes aos Terços de João Fernandes Vieira, Vidal de Negreiros, Felipe Camarão, Henrique Dias e Antônio da Silva.

 

Chegando à Rua do Sol, iremos em direção à antiga Estação Central, bonito prédio com a sua arquitetura em ferro inaugurado em 1888, para servir à Estrada de Ferro Central de Pernambuco, e hoje ocupado pela estação central dos trens do metrô do Recife, através do qual poderemos atingir vários bairros da zona oeste, o Terminal Rodoviário do Curado e a vizinha cidade de Jaboatão dos Guararapes. Nas proximidades se ergue, imponente, a antiga Casa de Detenção do Recife, expressivo edifício construído entre 1850 e 1856, sob a direção do engenheiro José Mamede Alves Ferreira, transformado em 1975 em Casa da Cultura de Pernambuco. No seu pátio central dois notáveis painéis assinados pelo pintor Cícero Dias, com motivos da vida e da história pernambucana, chamam a atenção do visitante. Conhecer dezenas de lojas dispostas nas antigas celas da primitiva cadeia, onde se encontram as mais expressivas peças do artesanato popular da região Nordeste, é tarefa das mais agradáveis.
Pelo bairro da Boa Vista
Na saída da Casa da Cultura, já no Cais da Detenção, poderemos apreciar a ponte Velha toda em ferro fundido, através da qual se atinge a Rua Velha, uma das mais antigas do bairro da Boa Vista, por se chega ao Pátio de Santa Cruz, cuja igreja sob esta invocação foi construída entre 1711 e 1716, e, seguindo-se pela Rua de Santa Cruz, à igreja de São Gonçalo e de lá ao conjunto arquitetônico do Hospital Pedro II.
Mas, se preferirmos seguir a nossa caminhada pela margem direita do Capibaribe, em busca da Praça Joaquim Nabuco, onde se ergue o monumento ao grande patrono da raça negra, inaugurado em 28 de setembro de 1915, voltaremos novamente à esquina da Rua Nova. Cruzando a Ponte da Boa Vista, construída em ferro na Inglaterra e aqui instalada em 1876, caminharemos até a Rua da Aurora onde, em direção ao norte, iremos encontrar o Cinema São Luís, com seus painéis assinados pelo pintor Lula Cardoso Ayres, e a ponte Duarte Coelho (homenagem ao fundador da primitiva povoação do Arrecife dos Navios), que une as avenidas Guararapes e Conde da Boa Vista. No prédio nº 265, que no passado foi sede do Club Internacional do Recife e abrigou a sede da Prefeitura do Recife, funciona hoje a Galeria Metropolitana de Arte Aloísio Magalhães, instalada em 1981 pela Fundação de Cultura Cidade do Recife, recentemente transformada em museu, com o seu notável acervo de arte contemporânea produzido pelos mais consagrados artistas pernambucanos e até por estrangeiros.

 

Seguindo a nossa caminhada, pela margem do Capibaribe, iremos encontrar belos prédios em estilo neoclássico, ainda no casario da Rua da Aurora, com destaque especial para o de nº 277, onde funciona o Palácio Maçônico - Loja Segredo e Amor da Ordem, fundada em 1860, e o de nº 405, onde se encontra instalada a Secretaria de Segurança Pública e que fora outrora a residência do Conde da Boa Vista, Francisco do Rego Barros (1802-70), tendo nele funcionado, entre 1909 e 1930, o antigo Senado Estadual. Mais adiante vislumbra-se a ponte Princesa Isabel, e, em estilo neoclássico, o edifício sede da Assembléia Legislativa do Estado, erguido sob o traço do engenheiro José Tibúrcio Pereira Magalhães, em 1870, seguindo-se o também neoclássico Ginásio Pernambucano, construído entre 1855 e 186, obedecendo ao traçado do engenheiro José Mamede Alves Ferreira.
Mas, caso desejemos continuar a caminhada em direção ao oeste, iremos encontrar a Rua da Imperatriz Tereza Cristina, surgida de um aterro iniciado ao pé da segunda Ponte da Boa Vista (a primeira fora construída um século antes pelo Conde Maurício de Nassau) quando do governo de Henrique Pereira Freire (1737-46), em face das águas do Capibaribe chegarem nessa época até a atual Rua do Hospício. No "Aterro da Boa Vista", como ficou sendo conhecido até a segunda metade do século XIX, estabeleceram-se comerciantes, reservando-se os andares superiores dos sobrados para residência das famílias. No nº 147 nasceu, em 19 de agosto de 1849, aquele que veio a ser patrono da raça negra e principal líder do movimento da abolição da escravatura, Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, falecido na função de embaixador do Brasil em Washington, a 17 de janeiro de 1910. No final do primitivo aterro, a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Boa Vista fez erguer o seu templo entre 1784 e 1793, tendo recebido entre 1840 e 1879 a sua monumental fachada em mármore, esculpida em Lisboa pelo artista português Francisco de Assis Rodrigues.

 

Na Praça Maciel Pinheiro, ao lado, teremos ocasião de contemplar a sua notável fonte em mármore (785 cm de altura), disposta em quatro planos, na qual quatro ninfas e uma índia aparecem sustentadas por quatro leões em repouso. Trata-se de um dos mais belos monumentos da cidade, erguido em comemoração ao término da Guerra do Paraguai (1864-1870), esculpido em Lisboa pelo artista Antônio Moreira Rato (1818-1903) e ali instalado, por subvenção popular, em 31 de março de l875. Numa rápida visita à Rua da Conceição, poderemos conhecer as igrejas de Santa Cecília (padroeira dos músicos) e do Rosário dos Homens Pretos da Boa Vista (1788-1831).A nossa caminhada continua, através da Rua do Hospício, cuja denominação popular lembra a antiga estrada do Hospício de São João Batista, erguido em 1735 pelos Frades Esmoleres da Terra Santa, no quarteirão hoje ocupado pelo antigo Quartel General da 7ª Região e atual Hospital Militar do Exército (1854). Nela vamos encontrar o Teatro do Parque (1915), e, na Rua Martins Júnior nº 29, logo em frente, a mais antiga Sinagoga em funcionamento no Recife.
No prédio de nº 130, é possível visitar o mais antigo museu da cidade, mantido pelo Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, instituição cultural fundada em 1862, com peças históricas da maior importância, inclusive o marco divisório da capitania de Pernambuco com a de Itamaracá (séc. XVI), retratos de personagens da vida pernambucana, dois painéis das batalhas dos Montes Guararapes, canhões e mapas holandeses, primeiro prelo do Diario de Pernambuco (1825), importantes exemplares do mobiliário pernambucano do século XIX (com obras de autoria dos marceneiros Julião Béranger, seu filho Francisco Manuel Béranger, Remígio Kneip e Guilherme Spieler), além de uma rica biblioteca e de um precioso arquivo conhecido nos maiores centros mundiais de pesquisa da história ibero-americana.

 

Ao final da Rua do Hospício, dominando a Praça Adolfo Cirne, encontra-se o majestoso edifício da Faculdade de Direito do Recife, com a sua preciosa biblioteca de raridades. O prédio foi construído entre 1889 e 1911, em estilo renascentista, segundo projeto do arquiteto francês Gustavo Varin e construção sob a direção do engenheiro José Antônio de Almeida Pernambuco, considerado um dos mais bonitos do Recife e um dos mais importantes exemplares da arquitetura em ferro do país. A Faculdade de Direito do Recife, hoje vinculada à Universidade Federal de Pernambuco, foi criada, juntamente com a de São Paulo, por lei promulgada em 11 de agosto de 1827, com o nome de Curso Jurídico de Olinda.
Em 1854, já com o nome de Faculdade de Direito, a instituição transferiu-se do Palácio dos Governadores de Olinda e deste para o Recife, onde ocupou inicialmente um sobrado da Rua do Hospício, localizado onde hoje se encontra o antigo quartel general da 7ª Região Militar.

 

Das escadarias em mármore de Carrara do prédio da Faculdade de Direito vislumbra-se o Parque Treze de Maio, inaugurado em 1939, onde situa-se o prédio da antiga Escola Normal (1920), ocupado desde 1962 pela Câmara Municipal do Recife. Num passeio através de suas alamedas, o visitante terá ocasião de apreciar as esculturas de Abelardo da Hora, "vendedor de caldo de cana" e "violeiros", de visitar o novo prédio da Biblioteca Pública Estadual (fundada em1852) e de conhecer preciosos espécimens da flora brasileira, findando assim essa caminhada pelos bairros centrais do Recife.
Por praias e antigos engenhos
Para se viver esta cidade, porém, não basta tão somente uma caminhada de algumas horas, mas um verdadeiro conluio entre o visitante e a natureza a ser contemplada. Ensina Joaquim Nabuco que "o que faz a beleza deste nosso torrão pernambucano é em primeiro lugar o seu céu, que muda a cada instante, leve, puro, suave, onde as nuvens parecem ter asas, e que não é o mesmo em um minuto; é depois o nosso mar, verde, vibrátil e luminoso, as nossas areias tépidas e cobertas de relva, os nossos coqueiros, que vergam desde o soco até ao espanador de um brilho metálico e dourado, com que parecem ao longe sacudir as nuvens brancas, as jaqueiras e mangueiras cuja sombra redondada é um oásis de frescura e abundância..."

 

Em busca desses oásis, poderemos prosseguir, não mais a pé, com o nosso passeio... Assim, iremos ao encontro das praias de areia branca, enfeitadas pela vegetação litorânea e pelas velas das jangadas. Protegidas por uma longa trincheira de arrecifes, lá estão a nossa espera as praias do Pina e da Boa Viagem, verdadeiro paraíso terreal bem ao alcance dos nossos sentidos. São cerca de sete quilômetros de areia fina, piscinas de águas mornas, coqueiros a balançar ao vento, jardins bem cuidados, belos prédios com singulares esculturas dos artistas da terra, quiosques oferecendo a saborosa água de coco verde, excelentes hotéis, num dos trechos mais bonitos do litoral brasileiro.
Nele realizam-se vários eventos: em janeiro, a TV Bandeirantes promove o Verão Vivo, num grande palco armado no Pólo Pina, onde se apresentam artistas e se realizam concursos diversos; em outubro, acontece o Recifolia, um carnaval fora de época com muitas orquestras, trios elétricos, muito frevo e muita animação, e o Recife Open de Tênis, em quadras montadas à beira-mar; na passagem do Ano Novo a praia recebe nova roupagem com suas tendas multicoloridas, queima de fogos e uma multidão que comparece, vestida de branco, para dar boas-vindas ao novo ano, alguns fazendo pedidos e oferendas para Iemanjá, a deusa do mar nos cultos afro-brasileiros.

 

Mas nem só de mar vive esta nossa Veneza Americana... O Recife é uma cidade, no dizer de Gilberto Freyre, de formação notadamente urbana, visto a sua condição de porto exportador do açúcar produzido pelos engenhos que se estabeleceram ao longo da várzea do Capibaribe, a partir do século XVI. Através de terras não muito distantes, poderemos circular por áreas outrora ocupadas por alguns desses engenhos, cujos nomes encontram-se perpetuados nas denominações dos atuais bairros: Madalena, Torre, Cordeiro, Engenho do Meio, São João da Várzea, Dois Irmãos, Monteiro, Casa Forte, Engenho Uchoa, Jiquiá, Curado, Engenho São Paulo, Ibura, Engenho Poeta, que hoje cercam o centro urbano do Recife.
Assim, logo ao cruzar as pontes da Madalena, do Derby (bem ao lado do antigo prédio do Mercado de Delmiro Gouveia), ou da Capunga, estaremos em terras do antigo engenho da Madalena, com o seu interessante conjunto arquitetônico do século XIX, na Rua Benfica, e sua casa-grande de dois pavimentos em azulejos portugueses, na Praça João Alfredo. Ali, num vasto sobrado onde residiu o conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, autor do projeto da Lei Áurea, hoje funciona o Museu da Abolição. Pela Avenida Visconde de Albuquerque e Rua Conde de Irajá, atingiremos o núcleo do antigo engenho da Torre, do qual ainda se conserva o que fora a casa-grande e a capela, hoje matriz de Nossa Senhora do Rosário (séc. XVII). Continuando o percurso, pela Praça da Torre em direção à Avenida Caxangá, o passeio seguir-se-á por terras outrora ocupadas pelo engenho Cordeiro e, através da Avenida do Forte, pode-se chegar às ruínas do Arraial Novo do Bom Jesus, em terras do antigo engenho São Tomé, que teve papel fundamental nas guerras contra o holandês (1645).

 

Por terras do primitivo Engenho do Meio, chegaremos ao Campus da Universidade Federal de Pernambuco, onde se localizam os principais centros de ensino e pesquisa da nossa mais antiga universidade (1946) e, de lá, atingiremos o engenho São João da Várzea. Num dos mais bucólicos subúrbios do Recife, o artista plástico Francisco Brennand instalou sua oficina e perpetuou sua obra, num grande e deslumbrante parque de esculturas, ponto de parada obrigatório de qualquer vivente interessado em lições da cultura viva pernambucana.Saindo de recantos tão aprazíveis, como o engenho de São João da Várzea, com suas matas, pomares, lagos e a sua casa-grande, construída em ferro (sec. XIX), iremos através de uma estrada de curiosa denominação, Volta do Mundo, em busca das terras do antigo engenho Dois Irmãos, onde se situa o campus da Universidade Federal Rural (1947) e o Horto Zoobotânico, ambos encravados numa reserva de mata atlântica com espécimens da fauna e da flora brasileira, verdadeiro refrigério para o corpo e para a mente de todos nós.
Por antigas estradas suburbanas, que estão a relembrar esses antigos engenhos e por onde circulou o primeiro trem urbano da América Latina, que tinha a denominação popular de maxambomba e serviu à população do Recife e Olinda de 1867 até o início dos anos vinte do século atual, iremos conhecer seculares mansões rodeadas por mangueiras, sapotizeiros, jaqueiras, cajueiros, bananeiras, tamarineiras, pés de fruta-pão e de carambolas, coqueiros, mamoeiros, abacateiros, goiabeiras, pitangueiras, cajazeiros, e uma infinidade de outras árvores frutíferas.
Tais propriedades têm em suas frentes vistosas grades de ferro fundido; obras estas desenvolvidas por uma fundição recifense, a C. Starr & Cia. que funcionou entre 1829 e 1875, na Rua da Aurora. Logo no nº 320 da Rua Dois Irmãos, poderemos conhecer as coleções e o pomar da Fundação Gilberto Freyre (onde por muitos anos residiu o autor de Casa-grande e senzala), seguindo-se a Fundação Joaquim Nabuco ( criada através de projeto do então deputado Gilberto Freyre em 1949), com a sua biblioteca central e seus acervos, fundamentais para o conhecimento da história e da sociedade do Norte-Nordeste do Brasil.

 

Mais adiante, na Praça de Apipucos, encontraremos um dos mais conservados conjuntos arquitetônicos que, com sua igreja e o açude a formar um grande lago, bem retrata a paisagem característica das povoações localizadas na zona rural do Recife do século XIX.
Por terras do engenho São Pantaleão do Monteiro, chega-se ao que fora outrora o engenho da Casa Forte, em cuja praça, com os seus jardins projetados por Roberto Burle-Marx, ainda se conserva, bastante modificada, o que fora a antiga capela do engenho de Ana Pais. Através da Estrada Real do Poço, chega-se ao Poço da Panela, uma espécie de santuário urbano com o seu casario e igreja de Nossa Senhora da Saúde (séc. XVIII), a relembrar um tempo em que os banhos do Capibaribe faziam bem à saúde e eram parte da vida de toda a população. – Trata-se de um antigo balneário da classe média alta do século XIX, retratado em romances de Mário Sette, que escreveu Os Azevedos do Poço, em partituras de compositores do século XIX, como Francisco Libânio Colás, e no imaginário popular, que não esqueceu a luta de José Mariano Carneiro da Cunha e de sua mulher, Dona Olegarinha, em favor da libertação dos cativos da raça negra.
Pela rua ao lado da Matriz de Casa Forte chega-se à Estrada do Encanamento, através da qual chegaremos, pela parte posterior, ao Sítio Trindade, localizado na Estrada do Arraial, hoje parque municipal. Neste local existiu o Forte Real do Bom Jesus, de onde o general Matias de Albuquerque à frente de centenas de bravos pernambucanos resistiu por cinco anos (1630-35) às bem municiadas e numerosas tropas holandesas financiadas pela Companhia das Índias Ocidentais.
Voltando às terras do antigo Engenho Casa Forte, na Avenida Dezessete de Agosto nº 2187, encontra-se o edifício sede da Fundação Joaquim Nabuco, o mais importante centro de pesquisas sociais do Norte-Nordeste do Brasil, onde muito aprenderemos sobre a vida, a sociedade, o açúcar, usos e costumes da nossa gente, numa visita guiada através das coleções do Museu do Homem do Nordeste.
Ainda pela Avenida Dezessete de Agosto, cuja denominação lembra a Batalha da Casa Forte, travada em 17 de agosto de 1645 entre os naturais da terra e as tropas holandesas, chegaremos ao largo do Parnamirim. Através da antiga estrada suburbana, logo chegaremos ao Parque da Jaqueira, com as suas árvores a oferecer sombra e fruto aos que repousam sob suas copas. Dentro do parque se encontra uma das jóias do barroco brasileiro: a Capelinha da Jaqueira que, sob a invocação de Nossa Senhora das Barreiras, ali foi construída a partir de 1770. Neste templo, o revolucionário Domingos José Martins veio a casar com Maria Teodora, filha do rico comerciante português Bento José da Costa, meses antes da sua condenação à morte, efetivada na capital da Bahia (Campo da Pólvora) em 12 de junho de 1817, como castigo por sua participação na Revolução Republicana daquele ano. Na véspera de sua execução, escreveu da prisão para sua amada um soneto – ... "A Pátria foi o meu Numem primeiro,/ A esposa depois o mais querido/ Objeto do desvelo derradeiro./ E na morte entre ambas repartido/ Será de um o suspiro derradeiro,/ E da outra há de ser final gemido." –, impresso no Recife pela Tipografia de Cavalcanti & Cia (1823). Juntamente com o patriota Domingos José Martins, foram mortos nesta mesma ocasião, condenados que foram pelo mesmo crime, o advogado José Luís de Mendonça e o padre Miguel Joaquim de Almeida e Castro; no mesmo local fora executado, a 29 de março daquele ano, o padre José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima; este último pai do futuro general José Ignácio de Abreu e Lima, herói das guerras de independência da Venezuela e da Colômbia, bem como participante da Revolução Praieira, movimento de caráter republicano eclodido no Recife em 1848, o qual deixou um saldo de 814 mortos e 1 701 feridos.

 

Ainda no Parque da Jaqueira, teremos ocasião de sentir o bucolismo do Rio Capibaribe, recordando os tempos dos velhos engenhos de açúcar em um passeio por suas águas. Tomando-se um barco a remo, no porto da passagem de Ponte D’ Uchoa, na Avenida Rui Barbosa, poderemos ir até a outra margem, em terras do antigo engenho da Torre, ou, dependendo de um acerto com o barqueiro, subir o rio em direção ao Poço da Panela e outros portos existentes ao longo do seu leito.
Voltando à Avenida Rui Barbosa, depois de apreciar o Capibaribe de sua margem mais alta, espreguiçando-se em busca do Atlântico, iremos em direção ao antigo solar dos Barões de Rodrigues Mendes, construído bem ao gosto de Louis Vauthier, naquele estilo francês que tomou conta do Recife nos últimos anos da primeira metade do século XIX. Lá, no prédio de nº 1596, hoje funciona a Academia Pernambucana de Letras, com suas coleções de esculturas, quadros e mobiliário pernambucano. Logo em seguida, passaremos pelo Colégio das Damas da Instrução Cristã (1896), também possuidor de precioso mobiliário pernambucano, e, na pracinha em frente, conheceremos uma estação da antiga maxambomba que hoje serve de ponto de parada de coletivos. No nº 1229, com os seus jardins tomados por seculares mangueiras e sua frente composta por grades de ferro da Fundição d’ Aurora (séc. XIX), encontra-se a magnífica e bem conservada casa do sr. Jorge Amorim Baptista da Silva, em estilo neo-gótico bem característico do Recife na segunda metade do século XIX. No quarteirão oposto, no nº 960, outro exemplar de arquitetura neo-gótica, a mansão do Barão de Beberibe, hoje ocupada pelo Museu do Estado de Pernambuco, ponto de visita obrigatório, com suas coleções de arte indígena, mobiliário da casa urbana recifense, gravuras, pinturas, além de painéis, quadros, armas e peças diversas ligadas ao período da dominação holandesa no Norte do Brasil (1630-54).
Ainda pela Avenida Rui Barbosa, em direção ao Parque Amorim, poderemos admirar seculares residências, rodeadas por convidativos pomares e belos exemplares de fundição nas grades de seus portões, além da igreja de São José do Manguinho (1759) e do Palácio do Manguinho, residência dos arcebispos de Olinda e Recife desde 1917. Mais adiante, se encontra a Praça do Entroncamento, que no passado servia de entroncamento de duas linhas da primitiva maxambomba, toda ornada por mangueiras (Mangifera indica L.), plantadas em 1924, com sua singular fonte de ferro fundido ao centro, inaugurada em 1925, seguindo-se o antigo "Sítio da Cruz", outrora residência da família Tavares da Silva, hoje um precioso exemplar da arquitetura francesa em terras recifenses, com o seu entorno mutilado por alguns acréscimos.
Chegando ao Parque Amorim, voltamos ao bairro da Boa Vista, através do qual poderemos ir ao encontro da igrejinha das Fronteiras, erguida a partir do ano de 1646 pelo comandante Henrique Dias, governador dos negros e mulatos quando das lutas que culminaram com a expulsão dos holandeses em 1654, ou do Colégio Salesiano do Sagrado Coração, na Rua Dom Bosco nº 551, cuja igreja em estilo neoclássico italiano se insere entre as maiores do Recife. Na Boa Vista, estão ainda a Universidade Católica de Pernambuco, o Colégio Marista, o Colégio Americano Batista, o Colégio Nóbrega, bem como outros estabelecimentos de ensino médio do Recife.
No Parque do Amorim, estaremos na encruzilhada desse nosso roteiro histórico e sentimental... Através da Avenida Agamenon Magalhães, que margeia o canal Derby-Tacaruna, poderemos prosseguir em novos itinerários. Em direção ao sul, tomando-se a Estrada dos Remédios, na altura da Ilha do Retiro, e depois a antiga Estrada da Imbiribeira, através dos Afogados, poderemos ir em direção ao Parque Histórico dos Montes Guararapes, onde nos espera o belo cenário da igreja votiva de Nossa Senhora dos Prazeres (cuja construção fora iniciada em 1654), em terras do vizinho município de Jaboatão dos Guararapes... Seguindo-se em direção ao norte, logo vislumbraremos as colinas da vizinha cidade de Olinda, a primeira capital de Pernambuco, onde outras surpresas estão a nossa espera...
Através dos mais diversos roteiros, estamos a vivenciar verdadeiras lições de civismo e de amor pelo que tem de melhor esta terra pernambucana. Por esses e por muitos outros motivos é que o Recife se tornou uma eterna paixão para forasteiros e naturais que, como o alagoano Ledo Ivo, estão sempre a repetir:
Amar mulheres, várias.
Amar cidades, só uma – o Recife
E assim mesmo com as suas pontes,
e os seus rios que cantam,
e seus jardins leves e sonâmbulos
e suas esquinas que desdobram os sonhos de Nassau.

O texto é do jornalista e escritor Leonardo Dantas elaborado em parceria com a Secretaria de Imprensa.
As fotos são de Natanael Guedes e Paula Bezerra.
Todas as fotos aqui apresentadas estão liberadas para download, desde que seja citada a fonte.
Agradecemos a contribuiçao deste fotografos excelentes.